A investigação revela novos desdobramentos sobre a atuação de lideranças do crime organizado a partir de presídios federais. Márcio dos Santos Nepomuceno, conhecido como Marcinho VP, é o principal alvo da Operação Backbone, deflagrada pela Polícia Federal.

O detento cumpre pena na Penitenciária Federal de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul. Segundo os registros da investigação policial, ele mantém o controle sobre atividades empresariais exploradas pela facção Comando Vermelho mesmo após quase três décades de reclusão.

A ofensiva policial mobilizou agentes para cumprir 23 mandados de prisão preventiva e 24 ordens de busca e apreensão. As medidas cautelares foram expedidas pelo Supremo Tribunal Federal e atingem diferentes municípios fluminenses.

As equipes policiais atuam em localidades como o Rio de Janeiro, Nova Iguaçu, São João de Meriti, Teresópolis, Maricá e Magé. A operação conta com o apoio de órgãos reguladores para avaliar sanções administrativas contra as empresas envolvidas no esquema criminoso.

Esquema de monopólio

A investigação aponta que a estrutura criminosa impunha o domínio armado sobre a prestação de serviços de internet. O esquema operava principalmente em complexos de favelas situados na zona norte da capital fluminense.

As ordens da facção afetavam diretamente os moradores dos complexos do Alemão, da Penha e do Chapadão. A imposição ocorria por meio de ameaças sistemáticas e violência direta contra clientes, comerciantes locais e empresas concorrentes.

Integrantes armados do grupo criminoso realizavam ações de sabotagem para eliminar a concorrência na região. Conforme o relatório da Polícia Federal, os suspeitos cortavam cabos de fibra ótica e incendiavam caixas de distribuição pertencentes a operadoras regulares.

Os criminosos também impediam o acesso de técnicos de manutenção às áreas dominadas para impedir reparos na infraestrutura. Com isso, a população local era obrigada a contratar exclusivamente os provedores que recebiam autorização da organização criminosa.

Arrecadação e lavagem

As empresas autorizadas a atuar nas comunidades repassavam valores mensais diretamente para a facção. Os dados contábeis apreendidos indicam que a cobrança pelo acesso à rede representou mais de 40% de toda a arrecadação do Comando Vermelho no Complexo da Penha em apenas um mês.

Para os investigadores, a exploração comercial da rede de computadores se consolidou como uma das atividades mais lucrativas da organização. O negócio também serve para consolidar o controle territorial ao garantir uma base fixa de clientes cativos nas áreas dominadas.

O fluxo financeiro ilegal contava com a participação direta de familiares do líder criminoso. Márcia Gama dos Santos Nepomuceno, esposa de Marcinho VP, e o filho Lucas Santos Nepomuceno foram detidos durante a execução dos mandados.

Os lucros obtidos com o fornecimento de internet chegavam aos familiares por meio de empresas arrecadadoras e operadores financeiros. O dinheiro passava por contas de passagem antes de ser injetado em negócios lícitos.

Bloqueio patrimonial

A Justiça determinou o sequestro e o congelamento de bens e ativos financeiros até o limite de R$ 558 milhões. Os valores ocultados eram dissimulados em produtoras de eventos, empresas de publicidade e aquisição de imóveis de alto padrão pagos em dinheiro vivo.

Os investigadores também identificaram a utilização de criptoativos para ocultar a origem dos recursos desviados pelo esquema. A Anatel foi acionada para analisar a cassação definitiva das autorizações de funcionamento das empresas suspeitas de integrar a rede criminosa.

Por Rafael Dumas, direto da redação