A investigação revela novos desdobramentos sobre a atuação de lideranças do crime organizado a partir do sistema penitenciário federal. Custodiado na Penitenciária Federal de Campo Grande, o traficante Márcio Nepomuceno dos Santos, conhecido como Marcinho VP, foi o principal alvo da Operação Blackbone, deflagrada pela Polícia Federal nesta segunda-feira.
De acordo com as apurações conduzidas pela corporação, o chefão da facção criminosa Comando Vermelho comandava de dentro da unidade de segurança máxima um esquema de monopólio no fornecimento de internet em comunidades cariocas.
O controle territorial era exercido por meio do emprego de armas de fogo, intimidação e ameaças diretas a moradores e comerciantes locais. Conforme dados divulgados pelo Correio do Estado, a investida policial cumpriu 23 mandados de prisão preventiva e 24 ordens de busca e apreensão expedidas pelo Supremo Tribunal Federal.
As diligências abrangeram a capital fluminense e os municípios de Nova Iguaçu, São João de Meriti, Teresópolis, Maricá e Magé, alcançando também familiares do detento, como sua esposa e um de seus filhos.
Esquema financeiro e lavagem de capitais
A estrutura criminosa utilizava empresas de fachada e provedores de telecomunicações legalizados para lavar os recursos obtidos com a atividade ilícita. Segundo os registros contábeis apreendidos pela Polícia Federal, a cobrança exclusiva sobre o serviço de internet em áreas dominadas respondia por mais de 40% de toda a arrecadação do grupo criminoso no Complexo da Penha em apenas um mês.
A exploração do serviço também atingiu os Complexos do Alemão e do Chapadão.
O cerco judicial resultou na determinação do bloqueio de bens e valores que somam até R$ 558 milhões. A medida atinge diretamente 40 pessoas físicas e 42 empresas, incluindo provedores de internet, produtoras de eventos, escritórios de contabilidade e companhias usadas para ocultar o patrimônio ilícito.
A Justiça ordenou ainda a suspensão imediata das atividades econômicas de todas as pessoas jurídicas envolvidas no esquema investigado.
Modus operandi nas comunidades
A dinâmica de coerção imposta pela facção contava com equipes armadas encarregadas de sabotar a infraestrutura de operadoras regulares e concorrentes. Conforme apontado nas investigações, cabos eram cortados e caixas de distribuição sofriam incêndios criminosos para impedir qualquer tipo de reparo técnico.
A população e o comércio local eram obrigados a contratar exclusivamente a rede controlada pelo grupo, gerando uma base de clientes cativos.
Os provedores autorizados pela facção precisavam pagar uma tarifa mensal volumosa pelo direito de operar nas localidades sob domínio do Comando Vermelho. A Agência Nacional de Telecomunicações será formalmente oficiada para cassar as outorgas e interditar os serviços prestados pelas empresas investigadas. O órgão regulador também deverá adotar providências para garantir que os moradores das regiões afetadas não fiquem desassistidos.
Histórico de custódia e desdobramentos
Preso desde 1996, Marcinho VP acumula condenações cujas penas superam 55 anos de reclusão por crimes como homicídio, associação criminosa e tráfico de drogas. Conforme reportagem publicada pelo Correio do Estado, a 8ª Câmara do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro determinou recentemente que o traficante permaneça no sistema federal de segurança.
A decisão jurídica foi motivada pela vigência de mandados de prisão preventiva pendentes, assegurando a manutenção do detento em presídio federal mesmo após o cumprimento do tempo máximo estipulado pela legislação antiga.
Os investigados na Operação Blackbone responderão por crimes como domínio social estruturado, extorsão majorada, atentado contra a segurança de serviço de utilidade pública e lavagem de dinheiro. A continuidade das apurações deve identificar novos operadores financeiros e contas de passagem utilizadas para blindar o patrimônio acumulado pela liderança criminosa.
Por Rafael Dumas, direto da redação




